segunda-feira, 7 de novembro de 2011

POBRES ESTÃO À MERCÊ DO VÍCIO NO VALE DO JEQUITINHONHA

PONTO DOS VOLANTES – Aos prantos, a doméstica Olinta Alves Gonçalves lamenta o destino do filho, de 17 anos, que se tornou viciado em crack e, depois de trazer muitos problemas para a família, foi encaminhado a uma clínica de recuperação em Belo Horizonte, a 635 quilômetros do lugar onde mora, o pequeno (e pobre) município de Ponto dos Volantes, de 10,7 mil habitantes, localizado no Vale do Jequitinhonha e que tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,594. “Não esperava que meu filho fosse encontrar crack aqui, mas, descobri que existia uma boca de fumo na minha rua”, lamenta a doméstica.

Aos 28 anos, Fernando garante que quer se livrar do crack. 
Por causa do vício, cometeu roubos e assaltos, foi preso e acabou baleado

Como Olinta, muitas outras mães e pais foram surpreendidos com a epidemia do crack que se espalhou rápido pelo país. Levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) que será apresentado hoje, em Brasília, revela que 63,7% de 4.400 municípios pesquisados enfrentam problemas de saúde decorrentes da droga, que, conforme estudo anterior realizado pela própria CNM, está presente em praticamente todas cidades pesquisadas (98%).

O crack deixou de ser problema apenas das grandes cidades – onde as pessoas há muito convivem com o alto consumo da droga – e invadiu municípios pobres, com baixo Índice de Desenvolvimento Humano. Essa realidade é facilmente constatada no Vale do Jequitinhonha, a região mais carente de Minas e uma das mais pobres do país. Moradores do vale sempre conviveram com a seca, o desemprego e a miséria. Agora, junto com a falta de expectativa de melhorias, enfrentam o problema do crack, cujos efeitos devastadores não se restringem à saúde dos viciados e atingem em cheio a estrutura familiar.

Olinta Alves não consegue conter o 

choro ao falar do drama do filho, 

de 17 anos, usuário de crack
Mas por que a droga avançou rápido em áreas carentes como o Jequitinhonha? O fato de a região ser cortada pela BR-116 favorece muito. Isso é verdade, mas há outros fatores para a chegada do crack nas pequenas cidades. Um deles é a facilidade de transportar e esconder a droga. Outro é que os adolescentes e jovens desses municípios não têm dimensão do poder viciante do crack (subproduto da cocaína misturado com outros produtos nocivos à saúde, que podem levar à morte). “Conheço muitos casos de adolescentes que usaram uma vez e se viciaram”, afirma o soldado da Polícia Militar Abrão Costa Martins Júnior, de Itaobim.

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Formado em enfermagem e com pós-graduação em tratamento de dependência química, Abrão desenvolve um trabalho de combate às drogas e o encaminhamento de viciados para centros de recuperação em 12 municípios do Jequitinhonha. “Em todos eles já existe o crack, que chegou até a zona rural”, assegura Abrão, que faz palestras para estudantes dentro do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), da PM. Em pouco mais de cinco anos, ele já levou mais de 200 adolescentes e jovens para centros de recuperação. “Como o comércio é fácil e os jovens se viciam rapidamente, o crack atraiu muito o interesse dos traficantes, pela possibilidade de lucro fácil”, diz o militar. 

Curiosidade

“Experimentei o crack por pura curiosidade, aos 15 anos. Desde a primeira vez que usei, virei viciado. Acabou com minha vida”, declara Fernando (nome fictício), de 28, morador de Itaobim. Na cidade, de 20,9 mil habitantes e IDH de 0,689, também às margens da BR-116, o consumo da droga se multiplica e amplia a violência por conta da formação de gangues de adolescentes e jovens.

“Crack é uma ilusão. Quando a gente usa a primeira vez, dá uma sensação que dura de 10 a 15 segundos. A partir daí é só destruição”, acrescenta Fernando, revelando que já chegou a fumar 50 pedras por dia. Ele não tem receio de contar que, por conta do vício, roubou e assaltou, ficou preso e quase foi morto. Por causa de drogas, levou três tiros. Sobreviveu e se convalesce de um tiro na perna esquerda. Agora, luta para ser encaminhado a um centro de recuperação para se livrar da dependência química.

“Já usei vários tipos de droga, como maconha e cocaína. Mas os efeitos do crack são mais destruidores”, diz. “O conselho que dou é que ninguém ponha uma pedra de crack na boca. Se fizer isso, vai perder tudo, como eu perdi”, acrescenta.

Menino de 14 anos é viciado em crack desde os 11
"O TRAFICANTE DISSE QUE ERA BOM"

Em Araçuaí, um menino de 14 anos, franzino, tranquilo, aparentemente sem problemas, fala sobre o vício em crack e seu sofrimento. Por conta das drogas, abandonou a escola. Já esteve internado em um centro para viciados, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas voltou a consumir crack. Diz que usou a droga pela primeira vez aos 11 anos, ao aceitar uma pedra oferecida pelo traficante, e acabou se viciando. 

Na sua casa, também um irmão, de 16 anos, é usuário e, como ele, largou os estudos.


Você se lembra da primeira vez que fumou a pedra de crack? Quem te ofereceu?



Foi um cara aí. Eu estava com um dinheiro no bolso. Aí, ele me ofereceu para vender e falou que era bom.


Você tinha quanto no bolso?
Uns R$ 10.

Deu para comprar o quê?
Uma pedra.

Você tinha quantos anos?
11 anos.

Você quer deixar o vício?
Quero.

Quem vende o crack aqui na cidade?
Não sei, não sei não.

O que você recomenda para outros garotos da sua idade quando alguém oferecer uma pedra de crack?

Não devem nem olhar, e não aceitar.

Fonte: Luiz Ribeiro - Estado de Minas

Sobre o Autor: Bernardo Vieira
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    Bernardo Vieira

    Sou mais um apaixonado pelo Vale do Jequitinhonha e suas riquezas. Venho, através deste blog, tentar expandir a cultura do vale, bem como trazer novidades e coisas úteis em geral. Formado em Administração pela UFLA - Universidade Federal de Lavras e Funcionário Público Estadual (TJMG). contato pelo email: nabeminasnovas@yahoo.com.br ou bernardominasnovas@hotmail.com.

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