segunda-feira, 4 de abril de 2016

Com status de estrada federal, BR-367 lembra trilha com buracos, valas e poeira

Suas más condições fazem de Chapada do Norte, Jacinto e Salto da Divisa três dos únicos cinco municípios mineiros sem ligação asfáltica.

Berilo, Chapada do Norte e Minas Novas – O Fiat Uno de lataria maltratada, tanque de combustível, peito de aço e cárter com várias soldas e remendos é um guerreiro das estradas. Nele, o motorista João Soares de Mendonça, de 56 anos, faz o que muitos no Vale do Jequitinhonha temem: leva gestantes, doentes, idosos, estudantes e trabalhadores de Chapada do Norte para Minas Novas (20 quilômetros de distância) ou para Berilo (21 quilômetros). Com experiência e disposição, mergulha na poeira da BR-367, desviando-se de buracos, controlando a trepidação sobre pedras, as quedas em valas, os atoleiros e os lamaçais escorregadios. Mas, às vezes, nem mesmo o Uno batalhador de João Soares consegue vencer a degradação dessa rodovia federal, que é considerada uma das piores do estado – sobretudo quando chove por mais de dois dias ou quando o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) deixa de dar manutenção nos trechos de terra que fazem de Chapada do Norte um dos cinco municípios mineiros ainda isolados por falta de asfalto.
BR-367 é uma das piores do Brasil: confira o vídeo
Apesar de não ter um título – como a BR-381, conhecida como a “Rodovia da Morte” pelo grande volume de vítimas de suas curvas fechadas – nem concentrar um número acentuado de acidentes, como as BRs 040 e 116, a BR-367 figura no grupo de vias que não precisam de problemas pontuais em pontes e barreiras para se tornar intransitável. A reportagem do Estado de Minas acompanhou os dramas e as dificuldades de quem precisa trafegar por rodovias que são consideradas as mais precárias de Minas Gerais para mostrar que o abandono e a falta de melhorias para caminhos que são importantes ligações regionais paralisam atividades econômicas e impedem o desenvolvimento social em vários municípios, que só podem recorrer a essas estradas.

O maior aperto que o motorista João Soares já passou foi quando uma mulher teve de dar à luz dentro do Uno. “Fiquei preso no barro de um morro quando levava a moça para o hospital, em Chapada. A sorte é que passou uma caminhonete traçada (com tração nas quatro rodas) da Polícia Militar e o guarda fez o parto dentro do meu carro. Não fosse isso, corria o risco de a mulher e de o bebê morrerem, porque não tinha ninguém para fazer nascer a criança”, lembra. “Desde que tinha 8 anos escuto falarem que o asfalto vai sair, mas não sai nada. E a gente fica aqui, se arrebentando nesse mundo véio (sic) de pedras e barro dessa rodovia”, desabafa.

No meio da estrada, surge uma placa que indica início do asfalto a 300 metros. Parece um alento. Mas o que deveria ser um alívio engana quem desconhece a estrada. São apenas 700 metros de asfalto, que compreendem duas curvas, até uma nova placa alertar para o fim do pavimento a 300 metros. Joaquim Santana, de 47, motorista de escolar, lembra quando construíram aquela parte. “Aquilo (o pequeno trecho pavimentado) é um tapa na nossa cara. Vieram uns engravatados aqui, mediram, trouxeram máquinas, fizeram um quilômetro de asfalto e depois foram embora. Deixaram a gente aqui, destruindo os carros.

A suspensão quebra, os pneus cortam; temos pneus novos na garagem que já estão cortados por causa das pedras. E, pior, os alunos vivem chegando atrasados. Uma viagem que levaria menos de 40 minutos é feita sempre em mais de uma hora”, calcula. Por causa dessas condições, uma linha de ônibus que fazia o itinerário de Minas Novas a Chapada do Norte parou de circular desde janeiro. Segundo o especialista em transporte e trânsito Silvestre de Andrade Puty Filho, asfaltar um segmento tão pequeno no meio de uma estrada de terra não faz sentido do ponto de vista da engenharia.
Juarez Rodrigues/EM/DA Press
Asfalto, quando existe, é em trecho de 700 metros que só aumenta a indignação dos motoristas (foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)

Uma das pontes de madeira do caminho para Berilo já cedeu duas vezes, com caminhões caindo no Rio Capivari. O limite de peso chegou a ser estabelecido em 12 toneladas, mas veículos de transporte de carga mais pesados do que isso continuam a passar pelo local, comprometendo ainda mais a segurança e a vida útil da estrutura já precária. Os mesmos problemas afligem outros municípios sem ligações asfálticas, como Jacinto e Salto da Divisa, também na BR-367, além de São João das Missões e Montalvânia, na BR-135, no Norte de Minas.

Via Estado de Minas

Sobre o Autor: Bernardo Vieira
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    Bernardo Vieira

    Sou mais um apaixonado pelo Vale do Jequitinhonha e suas riquezas. Venho, através deste blog, tentar expandir a cultura do vale, bem como trazer novidades e coisas úteis em geral. Formado em Administração pela UFLA - Universidade Federal de Lavras e Funcionário Público Estadual (TJMG). contato pelo email: nabeminasnovas@yahoo.com.br ou bernardominasnovas@hotmail.com.

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